quinta-feira, abril 14, 2016

Deixo aqui as palavras de Valter Hugo Mãe

Os Professores (Valter Hugo Mãe)
Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade.
A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria do mundo em que o mundo se tem vindo a tornar.
Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe.
Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesses crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo.
Houve um dia, numa aula de história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga. Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes.
Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se tivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível.
Dá-me isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias.
Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afeto.
As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.
Autobiografia Imaginária | Valter Hugo Mãe | JL Jornal de Letras, Artes e Ideias | Ano XXII | Nº 1095 | 19 de Setembro de 2012

quarta-feira, agosto 05, 2015

Curso de Direcção Coral em Aveiro: adorei!!

Estreia mundial da obra "Olham por dentro" de Alfredo Teixeira e poema do pe. José Tolentino Mendonça, com o grupo de maestros inscritos no curso e alguns coralistas convidados. Direcção de Armanda Patrício, sob o olhar atento do maestro Gonçalo Lourenço.

https://www.facebook.com/armanda.patricio/videos/10153018699951629/?l=6697584074900976621


Muito obrigada à Ana Sofia e ao João José por terem filmado e nos permitirem o acesso ao seu trabalho :D

sexta-feira, abril 10, 2015

Publicação já online



Apercebi-me hoje que o meu trabalho de final de Mestrado já se encontra no repositório do IPCB. Partilho o link para quem tiver curiosidade em lê-lo.


sábado, dezembro 27, 2014


Durante uns dias, estivemos TODOS! Uma delícia...

É tão bom poder juntar o quarteto Patrício... Este Natal foi particularmente bom!




terça-feira, dezembro 09, 2014

A vida podia ser tão simples...

Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

(Mário Quintana)

Por mais caminhos tortuosos que me coloquem à frente, mais eu sentirei que é mesmo por aí que tenho que seguir. Chamem-lhe teimosia. Eu chamar-lhe-ei resiliência...

segunda-feira, novembro 10, 2014

Procuro...

Procuro o silêncio da noite... É tarde...

Gosto de estar aqui parada, sem ouvir o barulho dos vizinhos, a agonia do trânsito, os gritos dos garotos (os berros dos mal-educados), a berraria das mães em resposta, as televisões num volume ensurdecedor, o elevador para cima e para baixo, o pi-pi-pi dos telemóveis...

Gosto de estar aqui... sozinha com os ruídos da minha cabeça. Sim... é que com tanto ruído a que estes são expostos, bem procuro o silêncio, mas parece-me que deixou de existir.

Procuro o doce silêncio que perdi. Alguém me ajuda?

terça-feira, outubro 21, 2014

Inhambane: "Terra da boa gente"

Apesar de já não ser um filme muito recente, mostra bem as riquezas de Moçambique, país onde nasci. A partir dos 10'17'' podem ouvir um pouco acerca da província de Inhambane. Gostava de me lembrar de mais coisas...

Obrigada Luiz Beira por me enviares este link. Fantástico!

quinta-feira, outubro 16, 2014

Desigualdade/Todos iguais

Uns Iguais Aos Outros (Titãs)

Os homens são todos iguais
(...)
Brancos, pretos e orientais
Todos são filhos de Deus
(...)
Kaiowas contra xavantes
Árabes, turcos e iraquianos
São iguais os seres humanos
São uns iguais aos outros, são uns iguais aos outros
Americanos contra latinos
Já nascem mortos os nordestinos
Os retirantes e os jagunços
O sertão é do tamanho do mundo
Dessa vida nada se leva
Nesse mundo se ajoelha e se reza
Não importa que língua se fala
Aquilo que une é o que separa
Não julgue pra não ser julgado
(...)
Tanto faz a cor que se herda
(...)
Todos os homens são iguais

São uns iguais aos outros, são uns iguais aos outros

domingo, outubro 12, 2014

Desejo muita energia à direcção para organizar a 2ª edição

Hoje, um dia depois de finalizado o 1º Concurso/Festival Internacional de Coros da Beira Interior, e umas quantas horas depois de investir no meu trabalho de investigação ( :D ), venho dar os parabéns ao Luís Cipriano. Estive ontem no concerto de encerramento e pude observar o sucesso da sua persistência. Não terá sido fácil avançar com um projecto assim arrojado no Interior do nosso país...

Apenas posso lamentar a falta de visão dos coros portugueses que, podendo participar num concurso internacional aqui "ao virar da esquina", (sendo por isso um investimento pouco avultado), preferiram não o fazer. Uma pena! Por incrível que pareça, nenhum coro português participou no concurso e os que participaram no festival fizeram-no aceitando o convite directo da organização.

Sei que a partilha de experiências com outros coros (e ontem ouvi uns jovens suecos que me deixaram completamente sem fala) traz sempre um enriquecimento fantástico. E o coro masculino da Letónia? Giríssimo!

Resta-me esperar que, daqui a dois anos (2016), possa participar. Afinal, também eu sou persistente ;)